O tricô apareceu no momento mais adequado possível na minha vida. Eu havia acabado de me mudar para outro país, não conhecia ninguém, estava distante da minha máquina de costura.

Como qualquer atividade, no começo parecia difícil e exigia um esforço imenso. Eu me atrapalhava para manusear as agulhas, não entendia a linguagem das receitas, não identificava a diferença entre os pontos. Demorou um certo tempo até que passasse o estranhamento inicial e virasse algo prazeroso.

Hoje, carrego meu tricô para cima e para baixo. Levo para o café, para passar o tempo no avião, para ocupar as mãos enquanto faço dever de casa com as crianças. Como dizem por aí, se tem um mal que tricoteiras não sofrem é de tédio. Sobrou um tempinho mínimo, logo eu saco minhas agulhas e encho aqueles minutos de knit, purl, knit, purl (prefiro as receitas em ingles, como aprendi).

E é justamente essa repetição de knit, purl, knit, purl_ ou, se você preferir, de ponto meia, tricô, meia, tricô_ que me fizeram passar a associar o tricotar com relaxar.Enquanto eu repito a sequência, minha mente fica livre para se esvaziar.

 

Como uma meditação, eu me acalmo e observo com mais detalhes cada passo. A lã envolvendo o metal da agulha, o tic-tac quando elas se encostam, os sons que surgem no ambiente: um pássaro lá fora, o caminhão barulhento, o grito das crianças do vizinho.

Tricotar também passou a ser meu melhor ritual antes de dormir. Tomo um banho, visto o pijama, preparo um chá sem cafeína _camomila, maçã ou hortelã_ e me aconchego com meu projeto. Começo focada no que estou fazendo e logo passo a refletir sobre o meu dia. Como em qualquer meditação, há dias em que estou mais agitada e o estado de tranquilidade demora mais para surgir ou nem vem. Já em outros, mergulho de vez e depois me entrego a um sono tranquilo.

É por isso que levo propositalmente meses em um único projeto e desprezo qualquer dica de “como tricotar mais rápido”. Também não vejo vantagem em acelerar o processo para ver a pilha de roupas tricotadas crescer logo. Prefiro seguir nesse jeito vagaroso, investir em lãs naturais e fazer e refazer até obter uma peça que me dê orgulho!

 

Tricotei essa blusa em 2016. Foi minha segunda peça de vestuário em tricô. Segui a receita Arleen, gratuita no site Raverly.