Gosto de roupa com história. Seja comprada ou feita em casa, eu me divirto quando um vestido me lembra de uma viagem, de uma pessoa querida, de um momento especial. Desde que me envolvi com o movimento slow fashion, desacelerei minhas aquisições por impulso e passei a refletir antes de acrescentar qualquer peça no meu guarda roupa.

Também perdi a pressa de ver minhas costuras prontas rapidamente. Vou curtindo o processo com calma e, se tiver que parar e deixar de lado por um tempo, tudo bem.Foi o caso desse vestido de linho verde. Ele é resultado do curso de modelagem que eu fiz nos Estados Unidos.

Primeira etapa na modelagem de um vestido: um tubinho ajustado que será a base.

Da base ajustada, fizemos as manipulações e recortes até chegar ao modelo desejado.

A professora era excelente. Raia fugiu da Síria com a família para os Estados Unidos há quase duas décadas. Antes de se expatriar, ela graduou na Esmod, uma das maiores escolas de moda francesas, que na época tinha uma filial na Síria. O conhecimento técnico dela sobre alta costura era impressionante. Agarrei com todo amor a oportunidade de aprender com alguém tão experiente.

Nas primeiras aulas, tiramos todas as medidas (uma lista imensa!!!), entao, modelamos 3 bases: para costurar uma blusa, a base para uma saia e para um vestido. Nesta etapa, o objetivo é fazer uma peça bem colada no corpo, que depois servirá como primeiro passo para o desenvolvimento de novas silhuetas.

Até aí tudo bem. Eu já tinha feito outros cursos de modelagem e essa técnica foi usada em todos eles. O novo para mim foi a ausência de papel. Segundo a Raia me explicou, na alta costura, tudo, desde o princípio, é executado em tecido. No caso, um algodão cru.

Estranhei, mas depois vi a praticidade. O próprio molde é costurado e testado no corpo até chegarmos ao ideal, algo que jamais poderia ser feito se estivéssemos usando papel. No meio disso tudo, modelamos e costuramos vários vestidos ao longo do processo. Isso dá recursos para alterar cortes, pences e ajustar ou soltar em alguma parte específica.

Os meses que frequentei as aulas com a Raia me levaram a refletir sobre o jeito que eu desejo criar as minhas roupas. Das outras vezes em que fiz curso de modelagem, reclamava justamente da lentidão do processo. Eu ainda não tinha prática na máquina e tudo o que queria era ver a peça final pronta. Corria para concluir logo e já passar para a próxima blusa, encher meu armário com mais um vestido.

Na fase atual, já não tenho mais a curiosidade de juntar as partes da modelagem na máquina, muito menos pressa para vestir o que estou fazendo. Vou desenvolvendo a ideia com calma, penso em todos os detalhes e capricho nos alfinetes e alinhavos para dar o meu melhor.

O tal vestido de linho verde, por exemplo, levou alguns meses até ser “convidado para uma festa”. Terminei o molde no fim de maio. Cortei o tecido em junho. E fechei tudo em um pacote, cheio de anotaçoes, que foi trazido de navio dentro da minha mudança dos Estados Unidos para o Brasil.

Pronta para a festa… de vestido novo, feito em casa. O prazer de costurar as próprias roupas é sensacional. Recomendo!

Há duas semanas, meados de setembro, reabri o pacote, alfinetei as 3 partes de cima da frente, as 4 partes de cima das costas. Marquei as pregas da saia.Fiz o mesmo com o tecido do forro. Quando percebi, já era hora de alinhavar o zíper. Inseri as alças, que seriam amarradas, mas acabaram melhor sem o laço. Daí, marquei a barra, como gosto, bem largas. E assim, nasceu meu vestido.