Comecei a tricotar em janeiro de 2016. Eu tinha me mudado há pouco tempo para os Estados Unidos e já de cara peguei um dos invernos mais rigorosos da década: quase 1 metro de neve na porta da minha casa, estradas fechadas, aulas canceladas por uma semana, alerta do governo para que todos permanecessem dentro de casa. Aquele cenário de filme da Sessão da Tarde foi o estímulo que eu precisava para me inscrever no curso de tricô no meu bairro. Para completar eu ainda não tinha comprado uma máquina de costura e minhas mãozinhas inquietas não viam a hora de se jogar em um projetinho.

Estava tudo na mão: dava para ir a pé até a loja/ ateliê, o preço era ok e eu precisaria comprar pouco material. Só um par de agulhas retas e um novelo de lã. Ah, ingenuidade! Eu nunca tinha entrado em uma loja exclusiva de fios e fiquei completamente perdida: DK? Fingering? Bulky? Pedi ajuda da professora para escolher.

Acostumada com tecidos, eu me assustei com os preços. Como assim? Quem paga de 15 a 25 dólares por um novelinho? Hein? Para fazer um casaquinho você precisa de 5 desses? Segui caminhando, fingindo naturalidade e percebi que no fundo daquelas prateleiras coloridas, a última delas, lá no canto da loja, tinha uma seção com precinhos melhores. Bemmm melhores.

Tasquei um: porque esses são tão mais baratos do que os outros? Não vou esquecer jamais a extensa lista de justificativas da vendedora-professora, que me convenceu imediatamente e ainda acabou inventando um monstrinho dentro da minha carteira.

Primeiro ela me explicou que aqueles eram fios acrílicos, ou seja, fibras criadas pela indústria química. A maior parte deles tem o petróleo como base. Eles podem ter na composição: nylon, poliéster ou poliamida. Além do preço-amigo, os fios artificiais têm outras vantagens: podem ser lavados tranquilamente na máquina, resistem à secadora e são perfeitos para determinados projetos, como meias.

Algumas marcas de lãs acrílicas incorporam enfeites como bolas, pelos e contas nos novelos. Sorry, mas essa moda eu pulo. Não curto de jeito nenhum.

Já os fios naturais podem ter origem animal ou vegetal. As fibras animais podem ser extraídas de cordeiros, merino (ovelha extra peluda e fofinha, originaria da Espanha, que pode produzir até 6 quilos de lã por vez), cashmere (lã extra fina retirada de cabras criadas na região do Himalaia), alpacas, lhamas, vicunha, do bicho da seda e até de coelhos e camelos. Os fios vegetais são obtidos do algodão, do linho, do bambu.

O toque da lã natural é completamente diferente da acrílica e vai variar conforme o animal de onde ela tenha sido retirada. As de cashmere e merino, por exemplo, são sempre extra macias. Enquanto as lãs nórdicas_ que vem de animais que tem que aguentar invernos rigorosos e camadas grossas de neve_ costumam ser mais rígidas e podem até incomodar no toque, porém chegam a ser quase impermeáveis e aquecem mesmo em temperaturas bem baixas.

Um dos maiores diferenciais do fio natural é o conforto térmico. Um casaco de lã de verdade, mesmo que bem leve e fino, aquece perfeitamente. E regula de acordo com a temperatura ambiente. Já vestiu um sweater e suou mais do que deveria? Então, os fios acrílicos dificultam a transpiração natural do corpo. Já os fios naturais ajustam-se melhor às mudanças de temperatura e a trama não bloqueia a transpiração. Resultado: mais conforto e sendo bem direta… menos chance de mau odor.

Depois de alguns testes e muitos projetos concluídos, eu não tenho dúvidas. Prefiro os fios naturais.

E agora, quase 3 anos depois da primeira volta na loja de tricô, coleciono meus próprios argumentos. Como não tenho pressa em tricotar, uma peça leva semanas, às vezes meses para ficar pronta. Durante esse tempo, carrego o fio, as agulhas e a receita pra cima e pra baixo. Adoro apreciar o toque, a cor, enquanto me dedico ao projeto. E nada melhor do que trabalhar com um material que admiro. Sem falar na durabilidade. Afinal, espero que meus xales, casacos, toucas e cardigans me aqueçam por muitos invernos pela frente.