Levante a mão quem faz trabalho manual_ seja tricô, crochê ou costura_ e nunca passou por uma fase em que parece que nada funciona. Você começa um projeto e deixa de lado. Empolga com outro e ele também não vai para frente.

Eu já passei por algumas fases assim e resolvi pesquisar o que fazer nestes casos de bloqueio criativo.Foi assim, fuçando, que eu cheguei ao livro The Artist’s Way, traduzido em português e publicado no Brasil com o título O Caminho do Artista.

A obra é um clássico nos Estados Unidos. Foi publicada pela primeira vez há 25 anos e continua sendo reeditada. Um best seller. Julia Cameron começou a carreira como repórter do Washington Post. Ainda no início da profissão, recebeu a missão de entrevistar o cineasta James Cameron. Os dois acabaram se apaixonando, se casaram e Julia redirecionou seus talentos para o cinema. Virou roteirista e diretora. Publicou mais de 40 livros, entre ficção e não ficção.

Vira e mexe era perguntada por amigos: qual o segredo para se manter criando sempre coisas novas? Chegou até mesmo a ser convidada para ministrar um curso e destrinchar suas técnicas. O curso se transformou no livro que conhecemos hoje.

Julia nao dá muitas voltas. No livro ela ensina exercícios diários para desbloquear a mente. Coisa simples. Nenhuma promessa mirabolante. De cara, já na introdução, pede:
– pare de repetir para você mesmo que é tarde demais
– pare de justificar que não tem dinheiro suficiente para fazer o que você realmente ama
– pare de se lamentar dizendo que “é só o seu ego”
– pare de apontar a criatividade como um luxo, do qual você não deve desejar

Artistas tendem a se autocriticar demais e esse excesso de cuidado e censura com o próprio trabalho está diretamente ligado ao medo do que os outros vão pensar. Vale lembrar que o livro foi escrito bem antes das redes sociais existirem e hoje tudo isso se torna ainda mais válido.

Bom, para reduzir essa insegurança, Julia sugere escrever diariamente as “páginas da manhã”. Simples. Pegue um caderno e se comprometa a escrever todos os dias _sem falhar_ o que vier a sua cabeça. Nada incrível. Sem se preocupar se alguém vai ler. Sem perfeccionismo. A ideia é tornar este registro uma rotina, uma meditação, uma higiene mental. Para a autora,as páginas servirão como uma forma de se auto conhecer e mapear o seu interior.

Pouco a pouco, essa rotina deve lhe ajudar a manter o foco, refinar o caminho para chegar até seus objetivos e estruturar pequenas ações que poderão levar ao sucesso. Eu já fazia algo parecido, mas nunca tinha associado esse meu “moleskine do coração” a uma potencial ajuda nessas fases de bloqueio criativo. Gosto de acordar e escrever sem rumo como forma de organizar meu raciocínio_ que vive sempre pra lá de confuso (vocês também são assim?).

Outra sugestão da autora é levar “seu artista interior” para encontros em lugares bonitos. Ah! Essa eu também já fazia! Quem me acompanha no Instagram, ja deve ter visto que semanalmente eu sento em um café. Geralmente levo meu tricô e meu caderno. Achei divertida a comparação da Julia Cameron. Ela diz que seria como o tal “tempo de qualidade” que tanto falam para os pais terem com os filhos. Pode ser uma caminhada em um parque, sentar para olhar o amanhecer, ir ao cinema, a uma exposição, ligar para aquela amiga crafter que voce admira. Parece óbvio e clichê, mas o que ela quer com isso é que você priorize um tempo para nutrir sua criatividade.

Essa dica do “passeio solitário com seu artista interior” vale especialmente para mães ou para quem trabalha com o público e está constantemente rodeado de pessoas. A criatividade precisa de momentos solitários para aparecer. Mesmo que eles sejam extremamente curtos.

“Perfeccionismo has nothing to do with getting it right. It has nothing to do with fixing things. Perfectionism is a refusal to let yourself move ahead.”

Camerom fala ainda sobre aquela eterna busca do equilíbrio entre trabalho sério e brincadeira. Eu super acredito nisso. Trazendo para o lado das costuras e do tricô, eu realmente acho que é preciso encontrar um balanço entre pesquisar, procurar cursos, assistir vídeos e se aprimorar cada vez mais. Porém sem deixar de se divertir enquanto cria.

No mais, Julia fala o que a gente já sabe, mas de vez em quando precisa de um puxao de orelha: não se auto sabote largando trabalhos inacabados (oi? alguém por ai também costuma deixar algumas peças de lado quando faltam apenas os acabamentos?). Deixe essa busca desenfreada pelo trabalho perfeito, o texto sem erros, a legenda sempre com ironia inteligente, as palavras sofisticadas. Esse excesso de lapidação atrapalha, traz inseguranca, bloqueia. Let’s play!